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Café e Prosa
Capa de Trono de Vidro

Prosa · Trono de Vidro, de Sarah J. Maas ·

A assassina que quase não assassina

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Celaena Sardothien tem dezoito anos, o título de Assassina de Adarlan e um ano de mina de sal nas costas quando o príncipe herdeiro Dorian aparece em Endovier com uma proposta: competir como campeã dele num torneio contra ladrões, soldados, mercenários, outros assassinos. Se ela vencer, vira a Campeã do Rei — executora pessoal do homem que destruiu a vida dela — e, depois de quatro anos de serviço, ganha a liberdade. Essa é a sinopse, e ela vende um livro que não é bem o livro que a gente recebe.

E eu acho que isso é a melhor coisa de Trono de Vidro.

A Maas passa o livro inteiro afirmando que a Celaena é letal, e mostrando pouco. A gente vê a moça treinar com o capitão da guarda, devorar a biblioteca do castelo, implicar com vestido, tocar piano, e vê quase nada do currículo que justificaria a fama. Num livro vendido em cima da assassina mais temida do império, isso deveria ser um defeito fatal — e boa parte dos leitores trata como defeito fatal mesmo. Antes que alguém jogue isso na minha cara: a Celaena que me interessou nunca foi a assassina. Foi a menina que sobreviveu a um campo de trabalho forçado onde quase ninguém dura um ano e que reaprende, meio sem jeito, a querer as coisas de novo. Doce. Vestido bonito. Livro. Piano. Acho que é aí que a personagem existe. O resto é lenda que ela mesma alimenta.

O torneio anda no formato que a gente conhece de reality show, com provas eliminatórias e um rival feito pra ser grande e assustador e pouco mais, o Cain. O que segura a segunda metade é a outra trama: campeões começam a amanhecer mortos, estraçalhados de um jeito que espada nenhuma explica, num império onde a magia foi banida faz dez anos e ninguém quer dizer a palavra em voz alta. Marcas antigas riscadas no chão, uma rainha morta há mil anos dando aviso, uma princesa estrangeira que sabe mais do que mostra, um rei que ninguém encara de frente. Daqui pra frente qualquer detalhe começa a estragar o duelo final, então eu paro por aqui.

O triângulo com o Dorian e com o Chaol, o capitão da guarda, existe e ocupa bastante página. Eu não acho que atrapalhe; também não acho que alguém vá lembrar dele daqui a um ano. A relação que ficou comigo depois de fechar o livro foi outra: a amizade da Celaena com a Nehemia, princesa de Eyllwe — duas mulheres se medindo antes de confiar, cada uma com um segredo que não conta. A capa não promete essa relação. Pra mim, é a melhor do livro.

Pra quem esse torneio vale o ingresso

Trono de Vidro é pra quem quer fantasia jovem-adulta com torneio, castelo de vidro, romance ocupando espaço de verdade e uma protagonista que a gente acompanha mais pelo apetite do que pela lâmina. É também a porta de entrada de uma série longa — são mais seis volumes, sete se contar as novelas de A Lâmina da Assassina — cuja fama é justamente crescer depois desse primeiro, coisa que eu ainda não posso confirmar nem desmentir.

Agora, pra quem tem como régua a fantasia adulta e sombria, com violência que cobra preço, a coisa desanda. Quem chega esperando uma assassina fria encontra uma adolescente vaidosa que discute livro com o príncipe, e passa o livro inteiro irritado com a distância entre o que o narrador afirma e o que a página mostra. Eu entendo a irritação. Só não assino embaixo.

O que me deixou com o pé atrás — e ao mesmo tempo com vontade de continuar — é a sensação de que Trono de Vidro é um prólogo de quatrocentas páginas. A Maas guardou as melhores cartas: a origem da Celaena e o que o rei de Adarlan pretende de verdade ficam quase inteiros pro futuro. Isso pode ser paciência de quem planejou a série inteira antes de escrever a primeira linha, ou pode ser um primeiro livro que não para em pé sozinho. Eu ainda não decidi qual dos dois é, e só o segundo volume responde.

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