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Café e Prosa
Capa de Silo

Prosa · Silo, de Hugh Howey ·

Acho que Silo é um livro sobre quem controla a tela

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A primeira frase do livro é uma criança brincando enquanto um homem sobe a escada para morrer. O homem é Holston, xerife do silo, e ninguém o condenou: ele se condenou sozinho, dizendo em voz alta a única frase que naquele mundo é crime — que quer sair. Três anos antes, a mulher dele, Allison, disse a mesma frase. Ele passou esses três anos pensando no porquê.

O que restou da humanidade vive num silo enterrado de 144 andares, o ar lá fora mata, e a única imagem do mundo externo chega por câmeras projetadas num telão do refeitório. Quem manifesta vontade de sair, sai — dentro de um traje selado, para limpar as lentes dessas câmeras e morrer à vista de todos. E o enigma que segura o primeiro terço do livro é esse: todos limpam. Todos. Até quem jura, antes de a porta abrir, que dessa vez não vai limpar.

Isso é engenharia de enredo da melhor qualidade, e acho que Howey é antes de tudo um engenheiro. Mas quem for esperando thriller de ação vai achar o começo lento. O silo não tem elevador. A prefeita Jahns desce os 144 andares a pé para convidar uma mecânica das profundezas, Juliette, a virar a nova xerife, e a descida leva dias — patamar, dormitório, horta, gerador. É o jeito que o livro encontrou de construir o mundo: fazendo a gente descer junto.

Comigo funcionou.

Quem controla o telão controla o resto

Juliette trata o silo como uma máquina com defeito, e é por isso que ela presta como protagonista: puxa fio, abre painel, quer ver a peça antes de aceitar a explicação. Do outro lado está o setor de TI, que guarda os servidores e decide o que pode ser lembrado — foi mexendo nesses arquivos que Allison achou o que não devia. O livro inteiro é uma disputa sobre quem decide o que aparece no telão, e a gente, que também só conhece a maior parte do mundo pela tela que alguém pendurou na nossa frente, entende essa disputa sem precisar de nota de rodapé. Essa foi a parte que ficou comigo.

E aqui eu vou ser sincero: eu não acho que Howey escreve bem, no sentido da frase. Quem tem prazer em sublinhar período bonito vai sublinhar pouco. O livro nasceu como um conto autopublicado na Amazon em 2011, cresceu porque os leitores pediram continuação, e dá pra ver a solda entre as partes: a estrutura é episódica, os capítulos foram feitos pra funcionar quase sozinhos. Acho isso mais interessante do que grave — o sujeito construiu a coisa sem pedir licença a editora nenhuma, e o produto final carrega as marcas disso. Agora, a revolta que toma a metade final, e que muita gente trata como o auge do livro, pra mim é onde ele mais se arrasta. O talento extraordinário de Howey é dosar informação. Cena de combate não é.

Existe uma explicação para a limpeza. Ela chega, é concreta, e recoloca tudo o que veio antes em outro lugar. Aqui eu paro, porque estou perto demais de estragar a melhor surpresa do livro — se for ler, evita resenha longa e resumo de internet até lá.

Se apegar a personagem aqui dá BO

Pra quem é: pra quem gosta de mundo fechado com regra própria e de descobrir o mecanismo junto com o personagem — e pra quem viu a série da Apple e quer conhecer o desenho original, que é mais seco e anda mais rápido. Pra quem não é: quem exige ciência rigorosa da sua ficção científica, porque o silo não passa numa auditoria de engenharia; quem lê atrás de estilo; quem precisa que o herói apareça na primeira página; quem se apega cedo a personagem — Howey troca de ponto de vista sem cerimônia no primeiro terço, e apego precoce aqui dá BO.

Terminei mais impressionado com o tabu do que com o fim do mundo. No silo, o crime não é sair; é dizer que quer sair. A ordem inteira se sustenta menos na mentira e mais no acordo coletivo de não perguntar, e eu terminei o livro contando quantas perguntas desse tipo eu mesmo deixo guardadas. Ainda não cheguei num número que me deixe em paz. Os outros dois volumes estão na fila; por enquanto, eu prefiro não saber o que tem depois da colina.

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