Correr ou Morrer funciona apesar do próprio autor
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Correr ou Morrer é uma máquina de virar página construída por um autor que não escreve bem. Terminei o livro em poucas sentadas, e isso pra mim já é meio veredito, porque livro que não anda eu largo sem cerimônia. Só que aqui a gente precisa de um cuidado: virar página depressa não prova que o livro é bem escrito. No caso do Dashner, essas duas coisas se separam com uma clareza que eu raramente vi.
Thomas acorda subindo dentro de uma caixa de metal, sem nenhuma memória além do próprio nome, e é despejado na Clareira, um campo murado no centro de um labirinto gigante, habitado por dezenas de meninos tão sem passado quanto ele. De dia, os Corredores mapeiam o labirinto atrás de uma saída; de noite, os portões se fecham e os Verdugos, as criaturas que patrulham os corredores, assumem o turno. No dia seguinte à chegada do Thomas, a caixa sobe de novo — e traz uma menina, a primeira, com um recado dizendo que ela é a última.
O labirinto é o personagem mais bem escrito do livro
O que o Dashner acerta, e acerta muito, é o mecanismo. A Clareira funciona como uma sociedade em miniatura, com trabalho dividido, hierarquia, regra dura e castigo pra quem quebra a regra — e o livro tem a paciência de mostrar essa rotina rodando antes de começar a quebrá-la, o que faz cada quebra pesar de verdade. Quando a ordem da Clareira começa a falhar, a gente entende na hora o tamanho do problema, sem precisar que ninguém explique. Isso é construção bem feita. Ponto.
Só que o mesmo livro sustenta o mistério com um truque que envelhece mal conforme as páginas passam: ninguém responde nada. O Thomas pergunta, e o Alby manda esperar. Pergunta de novo, e o Newt diz que ainda não é hora. Gíria inventada no lugar de explicação. Pergunta adiada pro dia seguinte. Capítulo fechando em gancho. Resposta empurrada pro próximo livro. E eu caí — fui virando página atrás de uma resposta que o livro, vamos dizer assim, não tinha inteira pra me dar. A gente aceita o truque porque quer o final, não porque o truque seja honesto.
Eu não acho que o Dashner escreva bem. Acho que ele arma bem. São talentos diferentes, e esse livro vive inteiro do segundo.
Já comprei essa briga na resenha de Divergente e compro de novo: como máquina de tensão, Correr ou Morrer funciona melhor que Jogos Vorazes — mesmo com a Suzanne Collins escrevendo dez vezes melhor que o Dashner. O labirinto é um enigma que trabalha em cada capítulo, o tempo todo, enquanto a arena da Collins é cenário pra um drama que acontece nas pessoas. Prefiro o enigma. Sustento isso.
Só que preferir o enigma tem um preço, e ele aparece nos personagens. O Minho tem personalidade própria. O Newt segura cena. O Chuck cumpre a função emocional. O Gally dá o atrito. Mas a Teresa, que chega carregando literalmente o recado mais importante da história, passa metade do livro desacordada e a outra metade servindo de canal de informação. Pra alguém de quem a trama depende tanto, é pouco. É muito pouco.
Do final eu digo só isto, e já estou beirando o que não devo contar: as últimas cinquenta páginas cobram um custo real dos personagens, coisa que eu respeito, e logo depois vem um epílogo que existe menos pra fechar a história e mais pra vender a continuação. O custo me pegou. O epílogo me deixou com o pé atrás.
Pra quem eu entregaria esse livro na mão
Pra um adolescente que jura que odeia ler, esse talvez seja o livro que destrava — ele foi desenhado pra isso e cumpre. Pra quem tá entre duas leituras densas e quer um mecanismo puxando a mão, também serve. Agora, pra quem lê por frase bonita ou por personagem que fica morando na cabeça, eu não recomendaria — e não é esnobismo: o livro simplesmente não tá tentando fazer isso.
O livro não me deixou personagem morando na cabeça — me deixou uma imagem: muros de pedra se movendo no escuro, mapas que só entregam o que são quando alguém tem a ideia de sobrepô-los. O Dashner deixou a isca do segundo livro armada na última página. Ainda não decidi se mordo.
