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Café e Prosa
Capa de O Guia do Mochileiro das Galáxias

Prosa · O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams ·

A piada do 42 é contra a gente

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O livro abre com Arthur Dent deitado na lama, na frente de um trator, tentando impedir a prefeitura de demolir a casa dele pra passar um desvio. O que ele não sabe é que, naquele exato momento, uma frota vogon está em órbita pra demolir a Terra inteira — pelo mesmo motivo, um desvio hiperespacial, e com a mesma desculpa de repartição pública: o aviso esteve exposto no departamento de planejamento, em Alfa Centauri, durante cinquenta anos, e quem não apareceu pra reclamar no prazo não pode reclamar agora. Essa rima entre a prefeitura e a galáxia é o projeto do livro inteiro. O universo do Adams não é maligno, é mal administrado.

A Terra é destruída, Arthur escapa de carona porque o amigo Ford Prefect era, sem ele saber, pesquisador de um guia de viagem galáctico, e os dois vão parar na nave roubada de Zaphod Beeblebrox, um presidente da galáxia com duas cabeças e nenhum senso de responsabilidade. Dali em diante, o enredo importa menos que as ideias que ele vai atravessando.

Eu demorei pra entrar no livro. As primeiras páginas parecem esquete de rádio — que é de onde a história veio, aliás —, piada atrás de piada, e eu fiquei um bom tempo esperando o romance começar. Só que chamar o Guia de livro de piada e parar nisso é ler errado. O peixe-de-Babel, que traduz qualquer idioma dentro do ouvido de quem o usa, vira em uma página um argumento teológico completo — e desemboca em guerra, porque a comunicação perfeita entre os povos não trouxe entendimento nenhum. Toalha como equipamento de sobrevivência, poesia vogon como método de tortura, uma máquina que serve um líquido quase, mas não exatamente, totalmente diferente de chá, um robô deprimido com um cérebro do tamanho de um planeta escalado pra abrir porta. Cada piada tem uma ideia séria embaixo, vamos dizer assim: o humor é o veículo, não a carga.

Aí chega o 42, que é onde eu queria chegar. Deep Thought, o computador construído especialmente pra isso, passa sete milhões e meio de anos calculando a Resposta pra Grande Questão da Vida, do Universo e Tudo Mais, e entrega: quarenta e dois. E avisa, na sequência, que o problema nunca foi a resposta — é que ninguém sabia qual era a pergunta. Acho que boa parte de quem estampa 42 em caneca e camiseta não percebeu de que lado essa piada corta. A graça não está no número. Está no fato de que a gente faz exatamente isso o tempo todo: quer a resposta pronta antes de ter feito o trabalho de formular a pergunta, e depois reclama que a resposta não serve. Eu me incluo. A piada é contra a gente.

Este é um livro pra quem gosta do humor inglês de lógica levada a sério até o absurdo, e pra quem aceita que o enredo aqui é um varal onde o autor pendura ideia. Quem lê ficção científica pela engenharia do mundo vai sofrer, porque não existe regra que se sustente — o próprio motor da nave, a Improbabilidade Infinita, é uma licença aberta pro Adams fazer acontecer o que ele precisar na cena seguinte, e ele usa sem cerimônia. Eu não acho que isso seja defeito, porque o livro nunca prometeu outra coisa. Mas quem chegar esperando Fundação devolve na página trinta.

Do último arco eu não vou contar quase nada, porque envolve o planeta Magrathea e o que dois ratos de laboratório querem com o Arthur — e quem estraga isso pra alguém merece ouvir poesia vogon. Digo só que a costura entre a Terra, o 42 e os ratos fecha de um jeito que faz o livro parecer bem mais planejado do que as cem primeiras páginas davam a entender. E que Slartibartfast, o projetista de planetas que ganhou prêmio desenhando os fiordes da Noruega, rouba o livro aparecendo pouco.

O livro me instalou um reflexo. Toda vez que eu topo com um processo absurdo — um sistema que exige cadastro pra liberar o cadastro, uma regra que existe porque sempre existiu — vem a voz do burocrata: os planos estavam disponíveis no porão, o senhor teve cinquenta anos. E ficou uma dúvida prática, porque este é só o primeiro de cinco livros e tem gente que jura que O Restaurante no Fim do Universo é ainda melhor: quero ver se a piada aguenta mais quatro volumes sem cansar.

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