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Café e Prosa
Capa de A Empregada

Prosa · A Empregada, de Freida McFadden ·

Li A Empregada em dois dias, e não sei se isso é elogio

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A Empregada é um livro feito pra ser devorado, e nisso ele cumpre exatamente o que promete. Comigo cumpriu: li em dois dias, num livro de trezentas e tantas páginas — o que diz alguma coisa sobre o livro, e diz alguma coisa sobre mim também, e eu ainda estou decidindo qual das duas me incomoda mais.

O contexto que a gente precisa, sem enrolar: Millie é uma ex-presidiária morando no próprio carro que aceita emprego de empregada na casa dos Winchester. Nina, a patroa, muda de humor sem aviso e parece decidida a fazer a vida da Millie impossível; Andrew, o marido, é simpático de um jeito que devia acender alerta. O quarto que dão pra Millie fica no sótão — e a porta tranca por fora. O livro abre, aliás, num dia em que já deu BO, com polícia na casa e um corpo no andar de cima, e depois volta pra contar como se chegou ali.

O que a McFadden faz bem, ela faz muito bem: capítulo curto, primeira pessoa, um anzol no fim de cada capítulo, sem exceção, com uma disciplina que eu duvido que seja acaso. A gente fala “só mais um” e quando percebe passou da uma da manhã. Funciona.

Eu divido livro em três. Tem livro que é refeição: alimenta, e alguma coisa em quem leu fica diferente depois. Tem livro que é marmita: sustenta o dia, cumpre o que promete, sem cerimônia. E tem livro que é salgadinho de pacote: a gente come inteiro sem perceber, e meia hora depois está com fome de novo. A Empregada é salgadinho. Eu comi o pacote inteiro.

Mas vamos combinar uma coisa: dizer que é salgadinho não é o mesmo que dizer que é fácil de fazer — tem indústria gastando fortuna pra calibrar salgadinho, e segurar um leitor por trezentas páginas é ofício, não sorte. Acho que boa parte de quem despreza a McFadden por “escrever mal” trocaria o próprio estilo, hoje, pela capacidade que ela tem de não deixar ninguém largar o livro — só não admite. Ao mesmo tempo, eu não acho que exista aqui uma frase que mereça ser sublinhada. Eu procurei. Pelo menos eu não encontrei nada.

O truque principal do livro é de estrutura, e é um truque bom: a primeira metade a gente vê pelos olhos da Millie, e mais ou menos no meio o ponto de vista troca de mãos e reconta o que a gente acabou de ler. Daqui pra frente eu só digo isto: a virada do meio é melhor que o final. O final resolve rápido demais, e com conveniência demais, o que o livro passou duzentas páginas armando.

O que ficou comigo não foi personagem, não foi cena. Foi uma desconfiança. O livro só funciona porque aposta na nossa pressa de julgar — a patroa histérica, a empregada indefesa, o marido paciente, a criança insuportável — e eu julguei cada um deles no tempo exato em que a autora precisava que eu julgasse. Caí direitinho. Não é uma sensação agradável, e talvez seja a coisa mais honesta que esse livro entrega.

Esse livro é pra quem está há anos sem conseguir terminar um livro e quer lembrar como é virar página com pressa — se o objetivo é destravar a leitura, eu acho que começar por aqui não tem vergonha nenhuma. Pra quem lê em fila de banco e intervalo de almoço, também: os capítulos cabem nesses buracos. Agora, quem lê atrás de linguagem não vai encontrar nada aqui, e quem se irrita quando o personagem toma decisão burra só porque a história precisa andar vai sofrer: a Millie toma algumas dessas, e numa delas deu vontade de entrar no livro pra segurar ela pelo braço.

Tem continuação — mais de uma. Eu ainda não decidi se leio. Salgadinho a gente conhece: o segundo pacote nunca é tão bom quanto a fome que a gente tinha no primeiro. Mas eu pensei isso do primeiro também, antes de abrir.

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