O problema de Cinquenta Tons de Cinza não está no quarto vermelho
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Cinquenta Tons de Cinza é uma fanfic de Crepúsculo que virou uma trilogia com mais de 150 milhões de exemplares vendidos — e esse número é o verdadeiro mistério do livro, bem mais que o quarto vermelho. Fui atrás desse mistério e li inteiro, da entrevista desastrada ao último capítulo, achando que ia largar na metade. O livro me segurou mais do que eu gostaria de admitir. A gente adora dizer que só perde tempo com livro bom. Não é verdade.
Anastasia Steele, estudante de literatura prestes a se formar, entrevista o bilionário Christian Grey no lugar da colega de quarto, que ficou doente. Ele tem 27 anos, um império em Seattle e uma proposta fora do comum: um contrato dizendo o que cada um pode e não pode fazer dentro de uma relação de dominação e submissão. O resto do livro é essa negociação — e o que acontece nas margens dela.
Sobre a escrita, não tem muito o que defender. A “deusa interior” da Ana aparece tanto que virou piada até entre quem gostou do livro, o monólogo interno repete as mesmas voltas, e a personagem morde o lábio numa frequência que dava pra usar de marcador de página. Mas os e-mails entre os dois — com os assuntos das mensagens funcionando como provocação — têm um timing que o resto do texto não alcança. Acho que se o livro inteiro tivesse a leveza dos e-mails, os críticos teriam tido bem mais trabalho.
A parte mais honesta do livro é o contrato
O contrato que o Christian apresenta — páginas de cláusulas, limites rígidos, limites flexíveis, o direito dela de sair quando quiser — é consentimento por escrito, negociado item por item, e a Ana passa capítulos pesando cada linha antes de decidir. Aliás, ela nunca assina. Calma, que tem um porém: reconhecer que o contrato é honesto não significa que a relação seja. Porque o que o Christian faz fora do contrato ninguém negociou. Rastreia o celular dela até um bar em Portland. Aparece na Geórgia quando ela viaja pra visitar a mãe. Faz o fusca velho dela sumir e uma Audi aparecer no lugar. Palpita no que ela come, no quanto ela dorme, com quem ela fala. O livro trata isso como prova de amor porque ele é rico, bonito e traumatizado — e eu não acho que ser rico, bonito e traumatizado transforme controle em cuidado. Dentro do quarto vermelho existem regras. Fora dele, não existe nenhuma.
Foi esse desequilíbrio que me incomodou. Não o sexo.
Pra quem é este livro: pra quem quer uma fantasia de romance com bilionário e não vai cobrar verossimilhança dela, e pra quem tem curiosidade legítima de entender por dentro um dos maiores fenômenos editoriais da história. Pra quem não é: quem procura literatura erótica bem escrita vai achar coisa melhor em muita prateleira, e quem espera um retrato fiel do universo que o livro diz retratar também não encontra — a própria comunidade da prática criticou o livro na época do lançamento, e depois de ler eu entendo o motivo.
Um aviso: neste parágrafo eu chego perto do final, sem entregar o final. A Ana pede pra conhecer o pior daquele mundo, o Christian mostra, e deu BO — do tamanho exato que precisava dar pra justificar mais dois volumes. Digo só isso.
O que ficou pra mim não foi a história, foi a pergunta. Um texto tecnicamente fraco, nascido de fanfic, detonado pela crítica, vendeu mais que quase tudo que se publicou neste século. Ou milhões de leitoras estão erradas, ou a crítica está medindo a coisa errada — e eu desconfio da primeira opção. E vou assumir uma posição que custa: acho que boa parte de quem despreza esse livro nunca leu, e eu respeito mais quem leu a trilogia inteira e defende do que quem repete piada pronta sem ter passado da capa. Crítica de ouvido não vale nada.
O primeiro volume termina num ponto que, pra mim, era o final certo da história — e a existência de uma continuação me diz alguma coisa sobre esse mercado que eu ainda estou ruminando.
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